Estamos no tempo litúrgico da Quaresma, quarenta dias que nos separam e preparam para a celebração da Páscoa, onde nos devemos empenhar mais profundamente com o nosso outro lado de vida, a vida espiritual.
Logo no início nos aparece o simbólico número quarenta! Quarenta anos do povo de Israel a atravessar o deserto… quarenta dias de caminhada do profeta Elias até chegar ao Monte de Deus, Horeb… quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de iniciar a sua vida pública e onde foi tentado pelo diabo, o que vem expresso no Evangelho do primeiro Domingo da Quaresma!
Que
quererá o Evangelista dizer ao relatar-nos os sofrimentos e tentações de Jesus
no deserto? O deserto para onde Jesus se retirou… e nós nos devemos retirar?
Um
deserto é um lugar sem água, arenoso e sem vida vegetal ou animal, um lugar de
solidão, silêncio e pobreza, onde, ocasionalmente, aparecem pequenos oásis onde
as pessoas se podem saciar do indispensável à sobrevivência… e descansar na
longa e penosa jornada!...
Num
deserto, a privação do apoio material leva a pensar nas questões fundamentais
da existência e ir ao essencial da vida - Deus. Mas… num deserto… muitas vezes
falta o essencial… e a privação exagerada do essencial leva à tentação de se
desviar de Deus.
Há duas
formas de vida que têm tendência natural a retirar-nos de Deus: a riqueza
exagerada e a pobreza extrema.
A
riqueza exagerada tende a esquecer Deus por O entender desnecessário; a pobreza
extrema tende a pensar que Deus se esqueceu da pessoa! Duas situações de
terrível deserto espiritual.
O
Evangelista apresenta três tentações específicas que o demónio fez a Jesus no
“deserto” para que ELE deixasse o caminho apontado pelo Pai e seguisse outros caminhos
aparentemente mais fáceis, os caminhos mundanos.
As
tentações que o Evangelista apresenta são as nossas próprias tentações!
A
primeira necessidade fundamental do corpo do homem é a alimentação… o pão que o
demónio quis conseguir através da pedra… e a que Jesus respondeu que o homem não
tem fome só de pão, mas de verdade, de amor, de carinho, de ternura… de Deus;
na segunda tentação o diabo propõe a Jesus o caminho da riqueza, grandeza,
poder e domínio natural do mundo… uma outra necessidade fundamental do homem,
ter força para vencer, não o mundo mas a si mesmo, pelo caminho da humildade,
da doação, da entrega, da solidariedade, do amor e da cruz/sacrifício; na
terceira tentação o demónio leva Jesus para o caminho da fama, do bonito, das
glórias mundanas… o reconhecimento é uma necessidade do homem, mas não numa
tentativa de manipular Deus num reconhecimento egocentrista do que se é perante
os outros homens, mas no reconhecer as nossas misérias e fraquezas perante a
infinita misericórdia de Deus/Amor e Senhor absoluto da vida.
Jesus
não cedeu! Assumiu as nossas tentações e misérias para vencer o maligno e
abrir-nos o caminho da conversão para Deus.
A Quaresma é um tempo de conversão por excelência! Converter-se é superar a tentação de querer submeter Deus aos nossos próprios interesses e perguntar o que é realmente importante na vida… na tua vida… na minha vida… em todas as vidas... porque o mundo é um todo de todas as vidas!...
Converter-se
é dar a Deus sempre o primeiro lugar! É deixar que o Evangelho de Jesus seja o guia
concreto da nossa vida! É deixar que Deus nos transforme! É reconhecer que
somos criaturas de Deus e dependemos do Seu Amor de tal modo que só "perdendo"
a nossa vida n’Ele e por Ele a podemos ganhar! É escolher o que se deve fazer à
luz da Palavra de Deus. É ser fiel no Matrimónio! É praticar a caridade e
misericórdia, dar tempo à oração e vida interior, renovar a cada dia o nosso
querer ser cristão e dar sempre a Deus o primeiro lugar, custe o que custar!
Qual é
o lugar que tenho dado a Deus na minha vida? E qual o lugar que Lhe quero dar a
partir da vivência desta Quaresma?
Senhor,
nos inúmeros desertos da vida, ajuda-me(nos) nas escolhas a fazer, para que
possa(mos) escolher sempre ser o que Tu queres que seja(mos)!
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